de olho no Alecrim

O Alecrim Dourado

O Alecrim Dourado
“Até Dubai tem Alecrim!”

Esse foi o primeiro pensamento que me veio em mente depois de ver todas aquelas pessoas amontoadas na minha frente. Mesmo numa cidade como essa, com os prédios mais altos e hotéis mais luxuosos, com as pessoas mais ricas do mundo e a maior concentração de carros importados do planeta, o mercado popular marca presença. Várias lojinhas coladas umas nas outras, corredores apertados, gente gritando, crianças perdidas, choro pra cá, pechincha pra lá. A única diferença do comércio popular de Dubai para o de Natal é o que os comerciantes vendem. Aqui o Alecrim é dourado. Todas essas lojinhas vendem ouro.

Em Dubai você encontra ouro em qualquer lugar, até mesmo no Carrefour, ao lado do setor dos pães. Eu não sei porquê eles escolheram logo o setor de pães, mas em todas as lojas Carrefour é lá que você encontra ouro, exposto numa vitrine, como se fosse uma opção de jantar (vai um pãozinho com ouro?).

No Dubai Mall, o maior shopping do mundo, o cenário é outro. As lojas parecem de brinquedo de tão inacreditáveis, e brilham – muito. Qualquer um pode ter acesso Àquela beleza toda, mas dinheiro pra levar pra casa? Não. Vamos então para o mercado popular, pra quem topa “se misturar” , pegar trânsito, estacionar longe, interagir – no sentido mais literal da palavra, e o melhor de tudo: economizar . E daí você pensa: o que seria do povo sem o mercado do povo?

O Gold Souk, o Alecrim Dourado ao qual me referi, fica localizado no bairro de Deira, o mais antigo da cidade. Estima-se que cerca de dez toneladas de ouro estão a venda nas trezentas e cinquenta lojas. Cadeados, seguranças, câmeras, portões de ferro? Não. Nada. É tudo aberto. Livre como se não existissem ladrões, e não existem mesmo. Os comerciantes pegam os artigos, mostram, as pessoas provam e devolvem. Tudo na maior tranquilidade. Além de não existirem ladrões ou medo de ser roubado, não existe mentira. Se eles dizem que é ouro mesmo, é porque é ouro mesmo, com certificado e tudo mais.

E como em qualquer mercado popular, é impressionante o quanto você consegue economizar. Eu costumo dizer que rico que é rico não sabe pechinchar. A arte da barganha vem da necessidade e alguns dominam essa arte com perfeição.

O melhor é reconhecer o ambiente primeiro e descobrir quão flexíveis são os vendedores na hora de dar um desconto. Afinal de contas, se eu quisesse comprar pelo preço de etiqueta, eu me juntaria as madames de maridos ricos no Dubai Mall. “300? Muito caro, moço. Vim do Brasil até aqui pra comprar ouro pra minha avó e o senhor vem dizer que é 300 conto? Me enganaram, pensei que era mais barato”. No fim, eu descobri que do ouro ao DVD pirata, as táticas são as mesmas e é tão divertido quanto.

A sensação de saber que muita gente pagou o dobro que você por terem vergonha de pedir um descontinho a mais é “impagável”.

Por mais cheia de classe que uma cidade seja, cheia de shoppings de luxo e lojas caríssimas, ainda existe “povo” e ainda existe o comércio do povo. Afinal de contas, foi assim que tudo começou - nas ruas, envolvendo trocas, negociações, interação e benefícios para ambos os lados. O mercado popular nunca vai deixar de existir.

Autor: Gabriela Noronha
Atividades: Desenvolvimento de mercados internacionais na Wavetec Dubai.
E-mail: Gabriela.noronha@wavetec.com
Formação: Jornalista graduada pela UFRN
 

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